Tontura e Labirintite: Diferenças e Tratamentos

 ·  Clínica Plastiquè

Tontura: um sintoma, muitas causas

"Tontura" é uma das queixas mais frequentes nos consultórios médicos — e uma das mais inespecíficas. O paciente usa a mesma palavra para descrever sensações completamente diferentes: a ilusão de que o ambiente gira (vertigem), a sensação de andar em terreno instável (desequilíbrio), o escurecimento visual ao levantar rápido (pré-síncope) ou uma vaga sensação de cabeça vazia. Essas experiências têm origens, diagnósticos e tratamentos completamente distintos.

A diferenciação começa na história clínica: vertigem rotatória — sensação de que o quarto gira — é o marcador clínico das disfunções do labirinto. O paciente frequentemente descreve que "a cama gira" ao deitar, que a tontura piora ao virar a cabeça e que sente náusea intensa associada. Esse padrão aponta para uma causa vestibular periférica — no labirinto ou no nervo vestibular — e tem tratamento bem definido.

O que é o labirinto e como ele controla o equilíbrio

O labirinto é uma estrutura do ouvido interno dividida em duas partes funcionais:

Labirinto coclear: responsável pela audição — a cóclea converte vibrações sonoras em impulsos elétricos.

Labirinto vestibular: responsável pelo equilíbrio — composto de três canais semicirculares (detectam rotação da cabeça nos três planos do espaço) e dois órgãos otolíticos (utrículo e sáculo, que detectam aceleração linear e posição da cabeça em relação à gravidade). Cada lado envia sinais contínuos ao tronco cerebral. Quando os sinais dos dois labirintos divergem — por inflamação, cristal deslocado ou lesão — o cérebro interpreta isso como movimento inexistente: vertigem.

Labirintite versus neurite vestibular: a diferença importa

Os termos são frequentemente usados de forma intercambiável pelo público, mas têm significados distintos:

LabirintiteNeurite vestibular
Estrutura afetadaLabirinto (coclear + vestibular)Nervo vestibular (sem cóclea)
VertigemSim, intensaSim, intensa
Perda auditivaSim — componente coclearNão
ZumbidoFrequenteAusente
Causa comumViral (herpes, CMV) ou bacterianaViral (reativação de herpes)
Tratamento adicionalAntivirais se causa viral identificadaCorticoides em fase aguda

Na prática clínica, a presença ou ausência de alteração auditiva (zumbido, perda de audição) é o principal critério para diferenciar as duas condições. A maioria das "labirintites" diagnosticadas popularmente são, na verdade, neurites vestibulares de causa viral — tratáveis com corticoides, reabilitação vestibular e tempo.

VPPB: a causa mais comum de tontura posicional

A Vertigem Posicional Paroxística Benigna (VPPB) é a causa mais frequente de vertigem na população adulta — responsável por 20 a 30% de todos os casos. O mecanismo é mecânico: cristais de carbonato de cálcio (otólitos) que normalmente ficam nos órgãos otolíticos se desprendem e migram para um dos canais semicirculares, geralmente o canal posterior.

Características clínicas típicas:

  • Vertigem rotatória de início súbito ao mudar de posição: deitar, levantar da cama, virar na cama, olhar para cima ou se abaixar
  • Duração curta: menos de 1 minuto por episódio
  • Nistagmo característico ao teste de Dix-Hallpike
  • Sem perda auditiva, sem zumbido
  • Desaparece espontaneamente em semanas a meses, mas recorre em até 50% dos casos

O diagnóstico é clínico — realizado pelo teste de Dix-Hallpike no consultório. O tratamento é a Manobra de Epley: série de movimentos cefálicos que reposicionam os cristais de volta ao utrículo. A eficácia em uma sessão chega a 80–90%. Não há medicamento que dissolva os cristais ou trate o mecanismo subjacente.

Doença de Ménière: a tríade clássica

A doença de Ménière é uma condição do labirinto membranoso causada pelo acúmulo excessivo de endolinfa (hidropsia endolinfática). Seu diagnóstico exige a presença da tríade clássica:

  1. Vertigem episódica: crises que duram de 20 minutos a 12 horas, espontâneas, incapacitantes, com náusea e vômito
  2. Perda auditiva neurossensorial flutuante: piora durante as crises e melhora entre elas, com progressão ao longo dos anos
  3. Tinnitus e plenitude auricular: zumbido de baixa frequência e sensação de "ouvido tampado" frequentemente precedem as crises
EstágioCaracterísticas
InicialCrises de vertigem + audição flutuante; entre crises, audição quase normal
IntermediárioPerda auditiva mais fixa; crises podem ser menos intensas mas mais frequentes
TardioPerda auditiva permanente nas frequências graves; vertigem pode diminuir com destruição progressiva do labirinto

O tratamento inclui dieta hipossódica (menos de 2g de sódio/dia), diuréticos (acetazolamida, hidroclorotiazida), betahistina e, nas crises agudas, antivertiginosos. Casos refratários podem se beneficiar de injeção intratimpânica de corticoide ou gentamicina (ablação química do labirinto).

Tontura recorrente merece investigação

O exame otoneurológico completo, com audiometria e avaliação do equilíbrio, identifica a causa e define o tratamento correto.

📞 Agendar consulta pelo WhatsApp

Outras causas: central versus periférica

A distinção entre tontura de origem periférica (labirinto, nervo vestibular) e central (tronco cerebral, cerebelo) é fundamental porque as causas centrais podem ser graves e exigem investigação imediata.

CaracterísticaOrigem periféricaOrigem central
InícioSúbitoSúbito ou gradual
Intensidade da vertigemMuito intensaModerada (às vezes)
NistagmoUnidirecional, suprimível com fixação do olharMultidirecional, não suprimível
Perda auditivaPossívelRara
Outros sintomas neurológicosAusentesDiplopia, disfagia, disartria, ataxia, cefaleia
Causas comunsVPPB, neurite, MénièreAVC, esclerose múltipla, tumor, enxaqueca vestibular

A enxaqueca vestibular merece menção especial: é a segunda causa mais comum de vertigem episódica recorrente. A vertigem pode ocorrer antes, durante ou independentemente da cefaleia — o que dificulta o diagnóstico. Responde ao mesmo tratamento preventivo da enxaqueca clássica.

Como o médico investiga a tontura

Anamnese detalhada

Tipo de tontura (rotatória vs. instabilidade), duração dos episódios, fatores desencadeantes, sintomas associados (audição, zumbido, cefaleia, visão dupla), medicamentos em uso. A história clínica direcionada é o instrumento diagnóstico mais importante.

Exame otoneurológico

Inclui avaliação do nistagmo (espontâneo e posicional), teste de Dix-Hallpike, testes de equilíbrio estático e dinâmico (Romberg, Unterberger) e avaliação dos pares cranianos. O médico busca padrões que diferenciem causa periférica de central.

Audiometria tonal e vocal

Identifica perda auditiva associada — essencial para diferenciar labirintite de neurite e para diagnosticar Ménière (perda nas frequências graves, flutuante).

Vectoeletronistagmografia (VENG) / Videonistagmografia (VNG)

Registro computadorizado dos movimentos oculares em resposta a estímulos calorimétricos e posicionais. Localiza e quantifica a disfunção vestibular — qual ouvido, qual canal, qual grau de comprometimento.

Potenciais evocados miogênicos vestibulares (VEMP)

Avaliam utrículo e sáculo — estruturas não testadas pela audiometria convencional. Útil na Ménière e em outras disfunções otolíticas.

Ressonância magnética com gadolínio

Indicada quando há suspeita de causa central, neurinoma do acústico ou Ménière refratária. Protocolo com cortes finos no ouvido interno e ângulo pontocerebelar.

Tratamentos: de manobras a medicamentos

VPPB

Manobra de Epley ou Semont (conforme o canal acometido). Eficaz em 80–90% na primeira sessão. Exercícios de Brandt-Daroff para domicílio nas primeiras semanas. Não requer medicação para o mecanismo causador.

Neurite vestibular aguda

Corticoides (metilprednisolona) nas primeiras 72 horas melhoram a recuperação. Antivertiginosos (dimenidrinato, ondansetrona) para controle de náusea na fase aguda — usados por no máximo 3–5 dias, pois retardam a compensação central. Reabilitação vestibular a partir do 3º–5º dia: exercícios progressivos de adaptação vestibular que aceleram a compensação central e reduzem o tempo de recuperação.

Doença de Ménière

Tratamento em camadas: dieta hipossódica e eliminação de cafeína e álcool → diuréticos (tiazídicos ou acetazolamida) → betahistina (24mg 3x/dia) → injeção intratimpânica de corticoide nas crises refratárias → injeção intratimpânica de gentamicina (ablação química) ou cirurgia (saculotomia, neurectomia vestibular) em casos graves e refratários.

Reabilitação vestibular

Para disfunção vestibular crônica de qualquer causa. Programa de fisioterapia com exercícios específicos que promovem compensação central e melhoram equilíbrio e confiança para atividades diárias. É o tratamento com melhor evidência para recuperação funcional a longo prazo.

Quando a tontura é urgência?

A maioria dos casos de vertigem tem causa benigna. Mas os seguintes sinais exigem avaliação de emergência:

  • HINTS positivo: nistagmo multidirecional, teste de impulso cefálico normal e desvio ocular vertical — tríade que indica AVC de fossa posterior com alta sensibilidade
  • Vertigem + cefaleia intensa de início súbito ("a pior dor de cabeça da vida")
  • Vertigem + diplopia, disartria, disfagia ou fraqueza em membro
  • Vertigem + perda auditiva súbita unilateral — pode ser oclusão da artéria labiríntica, emergência otológica
  • Queda associada à tontura em idosos — risco de trauma craniano

O sinal mais importante: tontura com déficit neurológico focal é AVC até prova em contrário. A RM de urgência (protocolo DWI) é o exame de escolha — a TC tem baixa sensibilidade para isquemia de fossa posterior nas primeiras 24–48 horas.

A labirintite/neurite vestibular aguda tem resolução espontânea na maioria dos casos em 4 a 6 semanas, com compensação progressiva realizada pelo próprio sistema nervoso central. O tratamento com corticoides e reabilitação vestibular acelera esse processo. Casos de Ménière não têm cura definitiva, mas o controle dos sintomas com tratamento adequado é plenamente possível.

Vertigem é um tipo específico de tontura — a ilusão de movimento rotacional, como se o ambiente girasse ou o próprio corpo estivesse rodando. Tontura é o termo amplo que engloba vertigem, desequilíbrio, pré-síncope e sensações vagas de cabeça leve. Identificar se a queixa é vertigem verdadeira ou outro tipo de tontura é o primeiro passo do diagnóstico, pois as causas são muito diferentes.

O estresse não causa labirintite diretamente, mas pode desencadear ou agravar crises em pessoas predispostas — especialmente na doença de Ménière e na enxaqueca vestibular. O mecanismo envolve alterações no fluxo endolinfático e no limiar de excitação vestibular. Gerenciar o estresse faz parte do tratamento nessas condições.

Durante episódios agudos de vertigem, não — o risco de acidente é alto. Após a resolução da fase aguda, a maioria dos pacientes retorna a dirigir normalmente. Pacientes com Ménière devem conversar com o médico sobre restrições, especialmente se as crises são imprevisíveis e incapacitantes.

Há versões adaptadas para uso domiciliar, mas a primeira realização deve ser feita com supervisão médica para confirmar o diagnóstico, identificar o canal acometido e realizar a manobra correta. A técnica errada para o canal errado pode piorar o quadro. Após o diagnóstico confirmado, o médico pode orientar como repetir em casa se houver recorrência.

Não. Os antivertiginosos suprimem sintomas — náusea e vertigem aguda — mas não tratam a causa subjacente. Usados cronicamente, retardam a compensação vestibular central, prolongando a recuperação. São indicados apenas na fase aguda (3 a 5 dias no máximo) para controle de sintomas intensos que impedem alimentação ou hidratação.

Sim, com medidas que reduzem a hidropsia endolinfática: dieta com baixo teor de sódio (menos de 2g/dia), evitar cafeína e álcool, hidratação regular, sono adequado e controle do estresse. Diuréticos e betahistina em uso contínuo reduzem a frequência das crises na maioria dos pacientes. O acompanhamento regular com otorrinolaringologista é essencial para ajuste do tratamento conforme a evolução.

Tontura recorrente tem solução — com o diagnóstico certo.

Avaliação otoneurológica completa com audiometria e exame do equilíbrio na Clínica Plastiquè — Tatuapé, São Paulo.

📞 Agendar avaliação pelo WhatsApp