Otite Crônica: Diagnóstico e Tratamento Cirúrgico

 ·  Clínica Plastiquè

O que é otite crônica e por que ela não resolve sozinha

A otite média crônica (OMC) é definida como uma inflamação persistente do ouvido médio com duração superior a 12 semanas, frequentemente associada à perfuração da membrana timpânica. Diferente das otites agudas — que surgem subitamente, causam dor intensa e geralmente respondem a antibióticos — a otite crônica instala-se lentamente, muitas vezes de forma silenciosa, e não resolve sem intervenção estrutural.

O motivo é anatômico: uma perfuração timpânica cria comunicação permanente entre o ouvido médio (ambiente estéril) e o ambiente externo. Por essa abertura entram bactérias, fungos e água, perpetuando o processo inflamatório. O tecido mucoso do ouvido médio, cronicamente inflamado, perde sua capacidade de defesa. A infecção se torna circular: perfuração → contaminação → inflamação → impedimento de cicatrização → nova contaminação.

Sem fechamento da perfuração — seja espontâneo ou cirúrgico — o ciclo não se interrompe.

Tipos de otite crônica: simples, colesteatoma e adesiva

Otite média crônica simples (OMCS)

É a forma mais comum e menos agressiva. Há perfuração timpânica central (não toca a borda da membrana) com descarga mucosa intermitente. Os ossículos e a mastóide geralmente estão preservados. O risco de complicações graves é baixo, mas a perda auditiva condutiva é progressiva sem tratamento.

Otite média crônica com colesteatoma

A forma mais grave. O colesteatoma é uma massa de células epidérmicas (epitélio escamoso queratinizante) que cresce de forma progressiva e destrutiva no interior do ouvido médio e mastóide. Não é um tumor — é epitélio fora do lugar — mas comporta-se como tal: erode osso, destrói ossículos e pode alcançar estruturas críticas.

Otite média crônica adesiva

Resulta de disfunção crônica da tuba auditiva com retração progressiva da membrana timpânica. A membrana "colapsa" sobre as estruturas do ouvido médio, fixando-se a elas. Não há perfuração ativa, mas a mobilidade timpânica está comprometida. É um estado pré-colesteatoma em casos de retração avançada de bolso.

Sintomas que diferenciam a otite crônica da otite aguda

CaracterísticaOtite agudaOtite crônica
InícioSúbito (24–72h)Gradual (semanas a meses)
DorIntensaGeralmente ausente ou leve
FebreFrequenteIncomum
OtorreiaPurulenta (se perfura)Mucosa ou mucopurulenta, recorrente
Membrana timpânicaAbaulada, eritematosaPerfurada, retraída ou com colesteatoma
AudiçãoReduzida temporariamentePerda progressiva e permanente
Resposta a antibióticoBoaParcial ou nenhuma

O sinal clássico da otite crônica é a otorreia indolor recorrente — descarga pelo ouvido sem dor, que volta toda vez que o paciente molha o ouvido ou tem alguma infecção de vias aéreas. Muitos pacientes normalizam esse padrão por anos antes de procurar tratamento.

Como o colesteatoma destrói o ouvido

O colesteatoma merece atenção especial por sua capacidade erosiva. A massa de queratina cresce em camadas concêntricas, secretando enzimas (colagenases, proteases) que destroem o osso adjacente — um processo chamado de osteólise por colesteatoma.

As estruturas que podem ser erodidas, em ordem de progressão:

  1. Ossículos (martelo, bigorna, estribo) → perda auditiva condutiva progressiva
  2. Canal semicircular lateral → tontura, labirintite
  3. Nervo facial (segmento timpânico) → paralisia facial periférica
  4. Tegmen tympani (teto do ouvido médio) → meningite, abscesso epidural
  5. Seio sigmóide → trombose do seio lateral
  6. Labirinto → surdez profunda, labirintite supurativa

Complicações intracranianas por colesteatoma — meningite, abscesso cerebral — têm mortalidade significativa. Por isso, o diagnóstico de colesteatoma é indicação cirúrgica sem exceção, independentemente do tamanho ou sintomas atuais. Não existe manejo clínico conservador para colesteatoma.

Diagnóstico: exame físico, audiometria e imagem

Otoscopia / microscopia otológica

O primeiro passo é visualizar a membrana timpânica. O otorrinolaringologista usa otoscópio convencional ou microscópio cirúrgico para avaliar localização e tamanho da perfuração, presença de retração de bolso, queratina (sinal do colesteatoma), pólipos ou granulações. A perfuração central é típica da OMCS. A perfuração marginal ou retração de quadrante póstero-superior é sinal de alerta para colesteatoma.

Audiometria tonal e vocal

Quantifica o tipo e grau de perda auditiva. Na otite crônica, o padrão clássico é perda condutiva com gap aéreo-ósseo proporcional à extensão da lesão dos ossículos. A presença de componente neurossensorial sugere extensão coclear — prognóstico cirúrgico mais reservado.

Tomografia computadorizada de ossos temporais

Exame de imagem de escolha. Avalia extensão da doença na mastóide, erosão ossicular, relação com canal do facial e tegmen. Essencial para planejamento cirúrgico. O osso temporal é analisado em janela óssea de alta resolução, sem contraste.

Ressonância magnética com difusão (DW-MRI)

Indicada para casos suspeitos de colesteatoma com TC não conclusiva ou para distinguir colesteatoma residual de tecido cicatricial no pós-operatório. O colesteatoma apresenta restrição característica à difusão — sinal hiperintenso em DWI.

Ouvido que descarga com frequência merece avaliação

A otoscopia e audiometria identificam se há perfuração, colesteatoma ou perda auditiva que requeiram tratamento cirúrgico.

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Tratamentos disponíveis

Tratamento clínico (controle, não cura)

Limpeza regular do ouvido (aspiração de secreção e debris), antibioticoterapia tópica nas exacerbações (quinolona otológica — ciprofloxacino tópico é de escolha, sem risco de ototoxicidade), evitar entrada de água no ouvido com tampão de silicone ao banhar-se. O tratamento clínico controla as infecções mas não fecha a perfuração nem trata o colesteatoma — é uma medida de manutenção antes da cirurgia ou para pacientes sem condições cirúrgicas.

Cirurgia — indicação e objetivos

A cirurgia é o único tratamento definitivo. Os objetivos, em ordem de prioridade, são:

  1. Erradicar a doença (colesteatoma, tecido inflamado crônico)
  2. Criar um ouvido seco e seguro (fechamento da perfuração)
  3. Restaurar a audição (reconstrução ossicular)

Cirurgia do ouvido: timpanoplastia e mastoidectomia

Timpanoplastia

Cirurgia para fechamento da perfuração timpânica. O cirurgião utiliza enxerto — geralmente fáscia do músculo temporal (tecido do próprio paciente) — para recobrir a perfuração. A técnica pode ser "underlay" (enxerto posicionado sob a membrana) ou "overlay" (sobre a membrana remanescente), escolhida conforme localização e tamanho da perfuração.

A timpanoplastia pode ser combinada com ossiculoplastia (reconstrução da cadeia ossicular) quando os ossículos estão erosados. O material de reconstrução pode ser os próprios ossículos remodelados, próteses de titânio ou de hidroxiapatita.

Mastoidectomia

Quando a doença se estende à mastóide — especialmente no colesteatoma — a mastoidectomia é necessária para erradicar o tecido doente. Existem duas técnicas principais:

TécnicaCanal posteriorVantagensDesvantagens
Canal wall up (CWU)PreservadoAnatomia normal, melhor audição potencialMaior risco de colesteatoma residual, pode exigir 2ª cirurgia
Canal wall down (CWD)Removido (cavidade aberta)Erradicação mais completa, menor recidivaCavidade requer limpeza periódica, restrições a água permanentes

A escolha depende da extensão do colesteatoma, experiência do cirurgião e condições do paciente. Casos de colesteatoma extenso ou em área de difícil acesso frequentemente exigem CWD para garantia de erradicação completa.

Recuperação e cuidados pós-operatórios

PeríodoO que esperar
Primeiras 48hTamponamento no canal, leve tontura, analgesia simples
1ª semanaNão molhar o ouvido, repouso relativo, antibiótico oral
2–3 semanasPrimeira consulta de revisão, retirada de curativo externo
4–6 semanasRetirada gradual do tampão; avaliar audição inicial
3 mesesAudiometria de controle — avaliação funcional do resultado cirúrgico
6–12 mesesTC ou RNM de controle (colesteatoma) para excluir recidiva

Cuidados permanentes após mastoidectomia canal wall down: a cavidade mastóidea aberta requer limpeza semestral no consultório — aspiração de debris e queratina acumulada. O paciente deve usar tampão impermeável para banho por toda a vida e evitar mergulho.

Quando a perda auditiva é irreversível?

A cirurgia da otite crônica pode recuperar parcialmente a audição — ao fechar a membrana e reconstruir os ossículos, a transmissão do som melhora. No entanto, quando o colesteatoma ou a infecção crônica atingiu a cóclea, danificando as células ciliadas, o componente neurossensorial da perda auditiva não é reversível por cirurgia.

Nesses casos, o objetivo cirúrgico é preservar a audição restante e criar um ambiente coclear sadio. A reabilitação auditiva com aparelho auditivo (AASI) ou, em casos de surdez profunda, implante coclear, complementa o tratamento cirúrgico para restaurar a funcionalidade auditiva.

Geralmente não. A ausência de dor é justamente o que leva muitos pacientes a adiar a busca por tratamento. A otite crônica se manifesta principalmente por otorreia recorrente (descarga pelo ouvido) e perda auditiva progressiva, sem o quadro álgico da otite aguda. Dor na otite crônica pode indicar complicação — abscesso, pericondrite ou extensão para mastóide — e requer avaliação urgente.

Não de forma definitiva. Os antibióticos controlam as infecções agudas mas não fecham a perfuração nem erradicam o colesteatoma. O tratamento clínico é uma ponte — mantém o ouvido seco e controlado — mas a solução definitiva é cirúrgica. Usar antibiótico indefinidamente sem tratar a causa estrutural favorece resistência bacteriana e progressão da doença.

Como toda cirurgia, envolve riscos, mas quando realizada por cirurgião experiente as complicações são raras. Os principais riscos específicos são: disgeusia (alteração do paladar, por manipulação da corda do tímpano), tontura temporária, insucesso do enxerto timpânico (5–15% nos casos favoráveis) e raramente lesão do nervo facial. A anestesia é geral e a cirurgia dura em média 1,5 a 3 horas.

Perfurações pequenas após otite aguda ou trauma fecham espontaneamente em 4 a 6 semanas em até 80% dos casos. Perfurações crônicas — presentes há mais de 3 meses — dificilmente fecham sem intervenção. A timpanoplastia tem taxa de sucesso de 85 a 95% em casos selecionados com ouvido seco.

Na maioria dos casos sim, mas o grau de melhora depende do estado dos ossículos e da cóclea antes da cirurgia. Quando a cadeia ossicular está intacta ou pode ser reconstruída e não há dano coclear, a melhora auditiva é significativa. Nos casos com perda neurossensorial estabelecida, a cirurgia preserva o que existe mas não recupera o dano já consolidado.

Sim. A taxa de recidiva do colesteatoma varia de 10 a 40% dependendo da extensão inicial e da técnica utilizada. Por isso, a tomografia ou ressonância de controle é realizada entre 6 meses e 2 anos após a cirurgia. Em casos de colesteatoma extenso operado com técnica canal wall up, uma segunda cirurgia programada ("second-look") após 12 meses é frequentemente planejada para verificar e erradicar doença residual.

Em crianças, a indicação cirúrgica segue os mesmos critérios — perfuração persistente, colesteatoma, perda auditiva progressiva. No entanto, o cirurgião pode aguardar a maturação da tuba auditiva (por volta dos 7–8 anos) antes de operar otites simples sem colesteatoma, pois tubas imaturas têm maior risco de recidiva. Colesteatoma em criança é operado sem espera — a progressão é mais rápida do que no adulto.

Ouvido com descarga recorrente? Avalie antes que progrida.

Otoscopia, audiometria e planejamento cirúrgico completo na Clínica Plastiquè — Tatuapé, São Paulo.

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