Saúde Trans Cuidados Perioperatórios

Hormonioterapia e Cirurgia: Quando Suspender, Quando Retomar

Protocolo baseado em evidências (WPATH SOC8) para pacientes trans em hormonioterapia: quando — e se — suspender estradiol ou testosterona, e como retomar com segurança.

Neste artigo

  1. Por que a hormonioterapia exige atenção especial
  2. Estradiol e risco trombótico: o que a evidência diz
  3. Protocolo de suspensão do estradiol
  4. Quando retomar o estradiol após a cirurgia
  5. Testosterona e cirurgia em homens trans
  6. Outras medicações relevantes no pré-operatório
  7. Comunicação com a equipe cirúrgica
  8. Perguntas frequentes

Por que a hormonioterapia exige atenção especial na cirurgia?

Os hormônios utilizados na terapia de afirmação de gênero — principalmente estradiol e testosterona — têm efeitos que vão além da feminização ou masculinização corporal. No contexto cirúrgico, esses hormônios alteram a coagulação sanguínea, o metabolismo anestésico e, em menor grau, a cicatrização, de formas clinicamente relevantes.

Ignorar essa interação pode aumentar significativamente o risco de complicações graves, como trombose venosa profunda (TVP) e embolia pulmonar — complicações potencialmente fatais cujo risco já é aumentado em qualquer cirurgia de grande porte pela imobilidade prolongada e pela inflamação sistêmica pós-operatória.

O protocolo de suspensão e retomada não é consensual em todos os centros cirúrgicos — mas as diretrizes mais atualizadas (WPATH SOC8, Endocrine Society, 2022) fornecem orientações baseadas em evidências que todo paciente em hormonioterapia deve conhecer e discutir com sua equipe médica antes de qualquer procedimento.

Estradiol e risco trombótico: o que a evidência diz

O estrógeno — especialmente o estradiol oral — aumenta a produção hepática de fatores de coagulação e reduz os níveis da proteína S anticoagulante, criando um estado pró-coagulante dose-dependente. Esse efeito é amplificado durante cirurgias por três fatores simultâneos:

  • Imobilidade prolongada na mesa cirúrgica
  • Inflamação sistêmica pós-operatória
  • Desidratação relativa e estase venosa

A formulação do estradiol impacta diretamente o risco — e esse é um ponto frequentemente desconhecido pelas pacientes:

Formulação de estradiol Risco trombótico relativo Observação
Oral (comprimido) Alto Maior pico de estradiol hepático; maior risco de TVP e embolia
Transdérmico (adesivo ou gel) Baixo–moderado Evita primeira passagem hepática; risco significativamente menor
Injetável (valerato ou cipionato) Moderado Picos suprafisiológicos podem elevar o risco trombótico
Sublingual Moderado Absorção variável; metabolismo parcialmente hepático

Conclusão prática: pacientes em estradiol oral têm o maior risco trombótico perioperatório. A troca para formulação transdérmica antes da cirurgia, quando possível, reduz substancialmente esse risco — e é recomendada pelos principais protocolos internacionais.

Protocolo de suspensão do estradiol

Situação Recomendação Base
Cirurgia de grande porte (≥ 2h, anestesia geral) Suspender 2–4 semanas antes WPATH SOC8 / Endocrine Society 2022
Cirurgia de pequeno porte (ambulatorial, < 1h) Avaliar caso a caso; muitos centros mantêm Consenso de especialistas
Formulação transdérmica Suspensão pode ser desnecessária em cirurgias menores WPATH SOC8
Uso de heparina profilática Pode permitir manutenção do estradiol oral em alguns casos Decisão individualizada com hematologista

O que acontece ao suspender o estradiol?

  • Ondas de calor e sintomas climatéricos podem intensificar nas primeiras semanas
  • Alterações de humor são esperadas e temporárias
  • Não há reversão significativa dos efeitos de feminização em 2–4 semanas
  • O volume mamário e a distribuição de gordura permanecem estáveis

Importante: nunca suspenda nem altere a hormonioterapia por conta própria. A decisão deve ser tomada pelo cirurgião em conjunto com o endocrinologista que acompanha sua hormonioterapia, considerando seu risco individual.

Quando retomar o estradiol após a cirurgia

Marco pós-operatório Condição Formulação
24–48 horas Paciente deambulando; sem sinais de TVP ou complicações Transdérmica pode ser retomada
2 semanas Alta hospitalar; mobilidade adequada Oral pode ser retomada com critério médico
4–6 semanas Recuperação plena; sem imobilidade significativa Retomada irrestrita de qualquer formulação

A retomada precoce — antes de 24 horas — não é recomendada mesmo para formulações transdérmicas em cirurgias de grande porte. O período de maior risco trombótico pós-operatório são as primeiras 72 horas, quando a inflamação sistêmica e a imobilidade ainda estão no pico.

Siga sempre o protocolo definido pelo cirurgião. Retomar a hormonioterapia antes da liberação médica pode aumentar o risco de complicações graves — o desconforto temporário pela ausência dos hormônios é muito menor do que o risco de uma trombose.

Planejando uma cirurgia e está em hormonioterapia?

Na Clínica Plastiquè, o planejamento perioperatório inclui avaliação individualizada do protocolo hormonal para cada paciente trans.

Falar com a equipe

Testosterona e cirurgia em homens trans

A testosterona tem um perfil de risco perioperatório diferente e geralmente mais favorável do que o estradiol. Os principais pontos de atenção são:

  • Policitemia: a testosterona estimula a produção de eritrócitos. Hematócrito elevado (acima de 50%) aumenta a viscosidade sanguínea e o risco de eventos trombóticos
  • Alterações lipídicas: reduz HDL e pode elevar LDL — relevante em cirurgias de longa duração com risco cardiovascular
  • Cicatrização: não há evidência de impacto negativo na cicatrização com doses terapêuticas habituais
Parâmetro Avaliação pré-operatória recomendada
Hematócrito / Hemoglobina Obrigatório; suspender ou reduzir dose se Ht > 50%
Perfil lipídico Recomendado em pacientes acima de 40 anos ou com mais de 5 anos de uso
Pressão arterial Monitorar; a testosterona pode elevar a PA em alguns casos
Função hepática Indicado em uso de testosterona oral (formulação rara no Brasil)

Suspensão da testosterona

Ao contrário do estradiol, a testosterona não precisa ser suspensa rotineiramente antes de cirurgias. A suspensão é indicada apenas quando:

  • Hematócrito acima de 50% que não normaliza após redução de dose
  • Risco cardiovascular elevado, avaliado caso a caso pelo cirurgião e cardiologista
  • Cirurgia de altíssimo risco trombótico — como cirurgia ortopédica de grande porte com imobilidade prolongada

Em homens trans saudáveis com exames dentro da normalidade, a testosterona pode ser mantida em toda a janela perioperatória sem aumento significativo de risco.

Retomada da testosterona

A testosterona pode ser retomada assim que o paciente conseguir realizar a aplicação de forma confortável — geralmente no 7º ao 14º dia pós-operatório para as formulações injetáveis. O gel transdérmico pode ser retomado imediatamente, desde que a pele na área de aplicação não esteja comprometida pela cirurgia ou curativos.

Outras medicações relevantes no pré-operatório trans

Medicação Consideração cirúrgica
Espironolactona (antiandrógeno) Pode causar hipotensão e hipercalemia; monitorar eletrólitos antes da cirurgia e suspender conforme protocolo do anestesista
Bicalutamida (antiandrógeno) Hepatotoxicidade potencial; verificar enzimas hepáticas no pré-operatório
Progesterona Sem evidência de risco trombótico significativo; geralmente mantida no perioperatório
Finasterida / dutasterida Sem impacto cirúrgico relevante; manter normalmente sem necessidade de suspensão
GnRH análogos (bloqueadores puberais) Sem evidência de risco cirúrgico aumentado; manter conforme protocolo endocrinológico

Comunicação com a equipe cirúrgica

Um ponto frequentemente negligenciado: informe toda a equipe médica — cirurgião, anestesista, enfermagem e clínico geral — sobre o uso de hormônios e quaisquer outras medicações. Em ambientes que ainda não têm protocolos específicos para pacientes trans, a proatividade na comunicação pode prevenir erros graves.

Checklist pré-cirúrgico para pacientes em hormonioterapia

  • Informar o cirurgião sobre formulação, dose e tempo de uso de todos os hormônios
  • Levar lista completa de medicações para a consulta pré-anestésica
  • Realizar exames de coagulação e hematócrito no pré-operatório
  • Confirmar com o médico prescriptor quando suspender e quando retomar cada medicação
  • Não suspender nem retomar hormônios por conta própria sem orientação médica
  • Comunicar imediatamente a equipe hospitalar em caso de sintomas suspeitos de TVP pós-cirurgia (dor, edema e vermelhidão em membros inferiores)

Perguntas Frequentes

Depende da formulação, do tipo de cirurgia e da avaliação do risco individual. Cirurgias ambulatoriais de pequeno porte com formulação transdérmica geralmente não exigem suspensão. Para cirurgias de grande porte com anestesia geral, a maioria dos protocolos recomenda suspensão de 2–4 semanas do estradiol oral. Sempre discuta com o cirurgião e o médico que acompanha sua hormonioterapia — a decisão é individualizada.

Não. 2–4 semanas sem estradiol não causam reversão perceptível dos efeitos de feminização — como distribuição de gordura, textura da pele ou volume mamário. Os efeitos da hormonioterapia já estabelecidos são estáveis nesse período. O que pode ocorrer são sintomas climatéricos temporários (ondas de calor, alterações de humor) durante a suspensão — desconfortáveis, mas esperados e transitórios.

Geralmente não, desde que o hematócrito esteja dentro do limite normal (abaixo de 50%). A testosterona não aumenta o risco trombótico da forma que o estradiol oral aumenta. A suspensão é indicada em situações específicas — hematócrito elevado não controlado ou risco cardiovascular significativo — sempre avaliadas individualmente pelo cirurgião e pelo endocrinologista.

Sim, obrigatoriamente. O anestesista precisa dessa informação para a avaliação de risco perioperatório, o ajuste do protocolo de profilaxia antitrombótica e a monitoração adequada durante o procedimento. Leve a lista completa de medicações — hormônios, antiandrógenos e qualquer outra medicação de uso contínuo — para a consulta pré-anestésica.

Sim, e em muitos centros isso é ativamente recomendado. A formulação transdérmica tem risco trombótico significativamente menor porque evita a primeira passagem hepática — o principal mecanismo pelo qual o estradiol oral aumenta os fatores de coagulação. A troca deve ser feita com antecedência de pelo menos 4–6 semanas antes da cirurgia para estabilização dos níveis hormonais. Discuta com seu endocrinologista.

Pode ser perigoso. A equipe cirúrgica precisa dessa informação para tomar decisões sobre profilaxia antitrombótica, monitoração de eletrólitos (no caso da espironolactona), avaliação de função hepática e cuidados anestésicos. Se chegar ao hospital e perceber que não informou, comunique imediatamente — antes de qualquer sedação ou procedimento. Nunca omita medicações de uso contínuo no histórico médico.

Formulações transdérmicas podem geralmente ser retomadas em 24–48 horas se a paciente estiver deambulando e sem sinais de complicações. O estradiol oral é retomado com mais cautela — geralmente após 2 semanas, quando o risco de TVP pós-operatória diminui significativamente. Siga o protocolo definido pelo cirurgião; não retome por conta própria antes da liberação médica.

Cirurgia segura começa no planejamento

Na Clínica Plastiquè, cada paciente trans recebe um protocolo perioperatório individualizado — com respeito, acolhimento e rigor clínico.

Agendar consulta pelo WhatsApp