O que é apneia do sono?
A apneia obstrutiva do sono é uma condição em que a via aérea superior colapsa repetidamente durante o sono, interrompendo a respiração por 10 segundos ou mais. Esses episódios podem ocorrer dezenas ou centenas de vezes por noite — o paciente acorda brevemente a cada vez, sem perceber, para retomar a respiração, nunca atingindo o sono profundo restaurador.
É muito mais comum do que se imagina: afeta cerca de 30% dos homens acima de 40 anos e 15% das mulheres, com prevalência crescente associada à obesidade e ao envelhecimento da população. A grande maioria dos casos permanece sem diagnóstico por anos, enquanto os riscos à saúde se acumulam silenciosamente.
Ronco e apneia: qual a diferença?
Todo paciente com apneia ronca, mas nem todo roncador tem apneia. O ronco é o som produzido pela vibração dos tecidos da via aérea durante o sono. A apneia ocorre quando essa via fecha completamente, causando pausas reais na respiração — e é nessa distinção que reside o perigo real.
| Característica | Ronco simples | Apneia do sono |
|---|---|---|
| Pausas na respiração | Não | Sim (≥ 10 segundos) |
| Queda de oxigênio no sangue | Não | Sim |
| Sono reparador | Geralmente sim | Não |
| Risco cardiovascular | Baixo | Alto |
| Tratamento necessário | Às vezes | Sempre |
| Exame diagnóstico | Polissonografia | Polissonografia |
| O que o parceiro observa | Ronco alto contínuo | Ronco + engasgos/sufocamentos |
Por que isso acontece: causas e fatores de risco
O colapso da via aérea durante o sono resulta da combinação de fatores anatômicos e funcionais que se potencializam mutuamente.
Fatores anatômicos
- Desvio de septo nasal e hipertrofia de cornetos (aumentam a resistência ao fluxo de ar)
- Amígdalas e adenoide aumentadas — principal causa em crianças e adultos jovens
- Úvula e palato mole alongados ou redundantes
- Mandíbula pequena ou retroposicionada (retrognacia)
- Língua grande em relação ao espaço da boca (macroglossia relativa)
Fatores sistêmicos e comportamentais
- Obesidade — o principal fator de risco modificável; o excesso de gordura no pescoço comprime a via aérea
- Sexo masculino — pescoço mais espesso e distribuição de gordura diferente
- Idade acima de 40 anos — perda progressiva do tônus muscular da faringe
- Álcool e sedativos antes de dormir — relaxam excessivamente a musculatura da via aérea
- Tabagismo — inflamação e edema da mucosa faríngea
- Posição supina (de barriga para cima) durante o sono
- Hipotireoidismo e acromegalia não controlados
Sintomas e impacto na saúde
Os sintomas da apneia do sono se dividem entre noturnos — frequentemente percebidos pelo parceiro de cama — e diurnos, que afetam o desempenho e a qualidade de vida.
Sintomas noturnos
- Ronco alto e irregular, interrompido por pausas e engasgos
- Agitação e mudanças frequentes de posição durante o sono
- Sudorese excessiva sem relação com temperatura ambiente
- Nictúria — necessidade de urinar várias vezes durante a noite
- Boca seca ao acordar
- Sensação de sufocamento ou engasgo que desperta abruptamente
Sintomas diurnos
- Sonolência excessiva — adormecer em reuniões, no trânsito, após as refeições
- Dificuldade de concentração e lapsos de memória
- Dores de cabeça matinais frequentes
- Irritabilidade e alterações de humor sem causa aparente
- Disfunção erétil e redução da libido
- Depressão e ansiedade
A sonolência diurna excessiva é particularmente perigosa: motoristas com apneia do sono não tratada têm risco 7 vezes maior de se envolver em acidentes de trânsito do que a população geral.
Riscos cardiovasculares da apneia não tratada
Este é o ponto mais crítico e menos compreendido pela população. Cada episódio de apneia provoca uma queda abrupta do oxigênio no sangue, ativação do sistema nervoso simpático e aumento brusco da frequência cardíaca e da pressão arterial. Repetido centenas de vezes por noite, durante anos, esse estresse cardiovascular tem consequências graves e documentadas:
| Condição | Aumento do risco com apneia não tratada |
|---|---|
| Hipertensão arterial | 2–3× maior |
| Fibrilação atrial | 4× maior |
| Infarto do miocárdio | 2,5× maior |
| AVC isquêmico | 3× maior |
| Mortalidade geral | 1,5–2× maior |
A apneia do sono é considerada hoje um fator de risco cardiovascular independente — tão relevante quanto o tabagismo e o sedentarismo. A hipertensão resistente a múltiplos medicamentos frequentemente tem a apneia do sono não tratada como causa subjacente.
Como é feito o diagnóstico
O padrão-ouro é a polissonografia, exame que monitora o sono e pode ser realizado em laboratório ou em domicílio. Ela é indicada tanto na investigação da apneia quanto na avaliação do ronco primário, pois é o exame que confirma se há ou não pausas respiratórias associadas.
Polissonografia em laboratório (tipo 1)
Monitoramento completo: eletroencefalograma (ondas cerebrais), eletro-oculograma (movimentos oculares), eletromiografia (tônus muscular), oximetria (nível de oxigênio no sangue), fluxo aéreo, esforço respiratório torácico e abdominal e eletrocardiograma. Permite diagnóstico preciso e classificação rigorosa do grau de apneia.
Polissonografia domiciliar (tipo 3)
Aparelho portátil que o paciente usa em casa durante o sono habitual. Menos variáveis monitoradas, mas suficiente para confirmação diagnóstica na maioria dos casos de apneia moderada a grave, com a vantagem de um sono mais natural no ambiente familiar.
Índice de Apneia-Hipopneia (IAH)
O resultado central do exame é o número de eventos respiratórios por hora de sono:
| IAH | Classificação |
|---|---|
| Menos de 5 eventos/hora | Normal |
| 5–14 eventos/hora | Apneia leve |
| 15–29 eventos/hora | Apneia moderada |
| 30 ou mais eventos/hora | Apneia grave |
Avaliação otorrinolaringológica
Complementar e fundamental ao diagnóstico: a nasofibroscopia identifica obstruções anatômicas em cada nível da via aérea — nariz, palato, amígdalas, base de língua — e é essencial para planejar o tratamento cirúrgico mais adequado quando indicado.
Tratamentos disponíveis
O tratamento é individualizado conforme o grau da apneia, as causas anatômicas identificadas e o perfil do paciente. Não existe conduta única que sirva para todos: a indicação do tratamento mais adequado é sempre individual e depende de uma avaliação médica especializada, que define a melhor estratégia para cada caso.
CPAP (Continuous Positive Airway Pressure)
Dispositivo que mantém pressão positiva contínua nas vias aéreas pelo nariz durante o sono, impedindo o colapso da faringe. É o tratamento de primeira linha para apneia moderada a grave, com eficácia próxima a 100% quando usado corretamente. O desafio central é a aderência: cerca de 30–50% dos pacientes têm dificuldade de adaptar-se ao uso contínuo — razão pela qual a avaliação de alternativas cirúrgicas é importante.
Dispositivo de avanço mandibular (DAM)
Aparelho intraoral confeccionado por cirurgião-dentista especializado que reposiciona a mandíbula levemente para frente, abrindo a via aérea posterior. Indicado para apneia leve a moderada, ronco simples e pacientes que não toleram o CPAP.
Emagrecimento
Para pacientes com obesidade, a perda de peso é o único tratamento capaz de resolver a apneia definitivamente. Cada 10% de redução no peso reduz o IAH em aproximadamente 26%. Quando associada à cirurgia bariátrica, a resolução completa da apneia ocorre em até 85% dos casos.
Medidas posicionais
Em casos de apneia estritamente posicional — predominantemente em posição supina — dispositivos que impedem dormir de barriga para cima podem ser suficientes para controlar os episódios.
Quando a cirurgia é indicada
A cirurgia é considerada quando há obstrução anatômica identificada e o paciente não tolera ou recusa o CPAP. As principais opções são organizadas por nível de obstrução:
Cirurgias nasais
- Septoplastia e turbinoplastia: reduzem a resistência nasal e melhoram significativamente a aderência ao CPAP — muitos pacientes que não toleravam o CPAP passam a tolerá-lo após correção da obstrução nasal
- Polipectomia nasal quando há pólipos obstruindo a via aérea
Cirurgias de orofaringe
- Uvulopalatofaringoplastia (UPPP): remoção do excesso de tecido do palato mole e úvula; eficaz em casos selecionados com obstrução palatal predominante
- Amigdalectomia: altamente eficaz quando as amígdalas são grandes e contribuem para a obstrução — principal tratamento cirúrgico para apneia em crianças
Cirurgias de base de língua e avanço maxilomandibular
Indicadas para casos graves refratários ao CPAP, com obstrução em múltiplos níveis. O avanço maxilomandibular tem taxas de sucesso superiores a 85% mesmo em apneia grave, sendo considerado a cirurgia com melhor evidência científica para casos complexos.
Estimulador do nervo hipoglosso
Dispositivo implantável que estimula o nervo que controla a língua durante o sono, mantendo a via aérea aberta. Aprovado para casos selecionados de apneia moderada a grave sem tolerância ao CPAP e com anatomia favorável.
Mudanças de hábito que fazem diferença
Independentemente do tratamento principal, essas medidas potencializam os resultados e devem fazer parte do manejo de todos os pacientes:
- Evitar álcool e sedativos nas 3 horas antes de dormir
- Manter horário regular de sono — consistência do ciclo circadiano melhora a qualidade do sono
- Elevar a cabeceira da cama em 30° para reduzir episódios de apneia posicional
- Parar de fumar — o tabagismo inflama e edemaciou a mucosa faríngea
- Praticar exercícios físicos regularmente — mesmo sem perda de peso, o condicionamento melhora o tônus da musculatura faríngea
- Tratar condições associadas: hipotireoidismo, rinite alérgica, refluxo gastroesofágico