O que são as amígdalas e qual a sua função?
As amígdalas palatinas são dois conjuntos de tecido linfoide localizados na parte posterior da garganta, um de cada lado. Fazem parte do anel de Waldeyer — sistema de tecido linfoide que inclui também a adenoide e as amígdalas linguais — e têm papel na defesa imunológica, especialmente nos primeiros anos de vida.
Na infância, as amígdalas são ativas na maturação do sistema imunológico e na resposta a infecções respiratórias. Com o crescimento, o sistema imunológico se torna mais sofisticado e independente, e as amígdalas perdem progressivamente sua relevância funcional. Em adultos, a remoção não compromete a imunidade de forma clinicamente significativa.
Quando as amígdalas se tornam um problema
As amígdalas deixam de ser aliadas e passam a ser problema quando cronicamente infectadas ou excessivamente aumentadas. Nesses casos, tornam-se foco de infecção recorrente, causam obstrução da via aérea ou abrigam bactérias de forma permanente — sem mais contribuir para a defesa do organismo.
As principais situações que levam à indicação cirúrgica em adultos são:
- Amigdalite bacteriana de repetição
- Amígdalas crônicas hipertrofiadas causando obstrução respiratória
- Abscesso periamigdaliano recorrente
- Suspeita de neoplasia (amígdala assimétrica ou crescimento rápido)
- Halitose crônica por cáseos amigdalianos persistentes
- Apneia do sono com obstrução amigdaliana documentada
Amigdalite de repetição: quantas vezes é demais?
O critério mais utilizado na literatura é o critério de Paradise, validado pela Academia Americana de Otorrinolaringologia:
| Frequência dos episódios | Indicação cirúrgica |
|---|---|
| 7 ou mais episódios no último ano | Sim |
| 5 ou mais episódios por ano por 2 anos consecutivos | Sim |
| 3 ou mais episódios por ano por 3 anos consecutivos | Sim |
| Episódios com documentação médica e antibioticoterapia | Obrigatório para contabilizar |
Cada episódio deve ser documentado com temperatura acima de 38,3°C, exsudato amigdaliano, adenomegalia cervical dolorosa ou cultura positiva para estreptococo — não apenas "dor de garganta". Na prática clínica, outros fatores também pesam: absenteísmo no trabalho, impacto na qualidade de vida, falha nos antibióticos e histórico de abscesso periamigdaliano.
Outras indicações para amigdalectomia no adulto
Abscesso periamigdaliano recorrente
O abscesso periamigdaliano — coleção de pus entre a amígdala e a musculatura adjacente — é a complicação mais comum da amigdalite bacteriana. Após o primeiro episódio, o risco de recorrência é de 10–15%. Após dois episódios, a amigdalectomia é fortemente recomendada, pois o risco de novo abscesso aumenta consideravelmente e o quadro tende a ser progressivamente mais grave.
Amígdalas com cáseos e halitose crônica
Tonsilas cripto-amigdalianas acumulam debris alimentares e bactérias nas suas criptas, formando os cáseos — pequenas massas esbranquiçadas de odor intenso. Além de causar halitose resistente a qualquer higiene bucal, os cáseos são fonte de mal-estar e infecção crônica de baixo grau. Quando o problema é persistente e impacta a qualidade de vida, a amigdalectomia é indicada.
Apneia do sono com componente amigdaliano
Em adultos jovens com amígdalas grandes, a hipertrofia amigdaliana pode ser um fator contribuinte significativo para a apneia obstrutiva do sono. A amigdalectomia, isolada ou combinada a outros procedimentos, pode reduzir substancialmente o índice de apneia em casos selecionados com obstrução predominantemente amigdaliana.
Amígdala assimétrica — alerta importante
Amígdala unilateralmente aumentada em adulto, especialmente acima dos 40 anos, deve sempre ser investigada por biópsia. O linfoma e o carcinoma amigdaliano, embora raros, se apresentam exatamente dessa forma. A assimetria amigdaliana no adulto nunca deve ser atribuída a infecção crônica sem exclusão de neoplasia por exame anatomopatológico.
Como é realizada a cirurgia
A amigdalectomia é realizada sob anestesia geral, com o paciente em posição supina com a boca aberta por um abre-boca cirúrgico. O cirurgião remove as amígdalas por dissecção da cápsula — separando o tecido amigdaliano do leito muscular adjacente. A hemostasia é feita por cauterização, ligadura ou combinação das duas.
A cirurgia dura entre 30 e 60 minutos. O paciente geralmente recebe alta no mesmo dia (cirurgia ambulatorial) ou permanece em observação por 24 horas, dependendo da técnica, do porte do procedimento e das condições clínicas individuais.
Técnicas disponíveis
| Técnica | Como funciona | Vantagens | Desvantagens |
|---|---|---|---|
| Dissecção a frio | Remoção mecânica com tesoura ou bisturi | Menor dano térmico, cicatrização mais rápida | Mais sangramento intraoperatório |
| Eletrocauterização | Corrente elétrica para dissecar e coagular | Menos sangramento | Mais dor no pós-operatório |
| Coblação (radiofrequência) | Plasma frio dissolve o tecido | Menos dor, menos dano ao tecido vizinho | Maior custo; não coberta pelo plano de saúde |
| Laser CO₂ | Vaporização precisa do tecido | Alta precisão cirúrgica | Custo elevado, menos disponível |
A coblação (radiofrequência a plasma frio) tem ganho popularidade por proporcionar menos dor no pós-operatório em comparação à eletrocauterização clássica, sendo hoje uma das técnicas preferidas para adultos, nos quais a dor pós-operatória é uma preocupação central. Vale ressaltar que a técnica por radiofrequência não é coberta pelo plano de saúde.
Riscos e complicações
A amigdalectomia é uma cirurgia segura, mas não isenta de riscos — e é importante que o paciente adulto esteja plenamente ciente deles antes de decidir:
- Sangramento pós-operatório: principal complicação, ocorrendo em 1–4% dos casos. Pode acontecer nas primeiras 24 horas (sangramento primário) ou entre o 5º e 10º dia (secundário), quando as crostas se soltam. O sangramento secundário é mais comum em adultos do que em crianças. Qualquer sangramento ativo exige atendimento de emergência imediato.
- Dor intensa: a dor pós-amigdalectomia em adultos é significativamente maior do que em crianças e frequentemente subestimada pelos pacientes. Dura de 10 a 14 dias e requer analgesia programada — não apenas "quando dói".
- Desidratação: a combinação de dor ao engolir e febre pode levar à ingestão insuficiente de líquidos, especialmente nos primeiros dias. Hidratação adequada é parte fundamental do pós-operatório.
- Infecção do leito amigdaliano: rara com antibioticoterapia profilática adequada.
- Lesões dentárias ou de palato: possíveis com o abre-boca cirúrgico, raras com técnica cuidadosa.
Recuperação: o que esperar semana a semana
| Período | O que esperar |
|---|---|
| Dias 1–3 | Dor intensa, febre baixa, dificuldade para engolir, náusea |
| Dias 4–7 | Pico da dor; formação de crostas brancas no leito — é normal |
| Dias 8–10 | Crostas começam a soltar — período de maior risco de sangramento |
| Dias 10–14 | Melhora progressiva da dor, retorno gradual à alimentação normal |
| 3 semanas | Retorno às atividades físicas leves |
| 1 mês | Recuperação completa na maioria dos casos |
Orientações essenciais no pós-operatório:
- Analgesia de horário fixo — não esperar a dor aparecer; paracetamol e anti-inflamatório conforme prescrição médica
- Dieta fria e macia nas primeiras 2 semanas — sorvete, iogurte, alimentos pastosos
- Hidratação intensa — pelo menos 2 litros de líquidos por dia para evitar desidratação
- Evitar esforço físico por 3 semanas
- Não usar AAS (aspirina) — aumenta risco de sangramento
- Procurar emergência se houver qualquer sangramento na garganta, mesmo pequeno
A amigdalectomia afeta a imunidade?
Esta é a dúvida mais frequente dos pacientes adultos. A resposta é não — de forma clinicamente relevante. Estudos de longo prazo demonstram que adultos submetidos à amigdalectomia não apresentam aumento nas taxas de infecções respiratórias, doenças autoimunes ou outras condições imunológicas em comparação à população geral.
O sistema imunológico adulto tem múltiplos mecanismos de defesa que compensam amplamente a ausência das amígdalas. O anel de Waldeyer tem outros componentes — amígdalas linguais, tecido linfoide difuso da faringe — que mantêm a vigilância imune local. A preocupação com imunidade não deve ser fator impeditivo para a indicação cirúrgica quando ela existe.